quinta-feira, 12 de agosto de 2010

os amantes sem dinheiro





No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
ao fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
- "Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."

Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esquecerei de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...

Boa noite. Eu vou com as aves!


Eugénio de Andrade

16 comentários:

  1. eu fiz um quadro com este poema para a minha mãe, é lindo lindo lindo *.*

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  2. esse senhor escreve tão bem <3

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  3. Ola! Obrigada pela visita ao meu cantinho! Teu blog tb esta maravilhoso! Tentei te seguir mas nao achei o link :/
    Um grande beijinho!!!

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  4. Adoro o teu blogue! É lindo! <3

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  5. Miminho no meu blog para ti *

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  6. Babe eu também sou do norte! Mas vou mudar me pa lx. Já agora como faço para te seguir? não encontro o link :s

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Posso não concordar com nenhuma das palavras que tu disseres, mas defenderei até à morte o direito de tu as dizeres.
Voltaire